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Imagem: Alan dos Santos / Presidência da República

O NOVO PAI DOS POBRES
Postado em 31/07/2020 por Bruno Machado de Oliveira

Getúlio Vargas começou como ditador e acabou como líder popular. Durante sua primeira passagem pela presidência (1930-1945), Vargas instituiu o salário mínimo e aprovou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Por seu carisma e pelas políticas sociais implementadas em seu governo, entrou para a história como o “pai dos pobres”.

Jair Bolsonaro não chegou ao poder como ditador (embora não tenha lhe faltado vontade), mas a ideia de se tornar um novo “pai dos pobres” tem lhe soado cada vez mais atrativa. Depois que seu projeto de “nova política” desmoronou, o capitão tem procurado dar sustentação a seu governo com novas alianças e políticas voltadas para a população mais pobre.

Como todo oportunista, Bolsonaro pegou carona numa iniciativa que não era sua. A pandemia exigiu do poder público medidas para socorrer os mais vulneráveis durante o período de isolamento social. A mais urgente era a instituição de uma renda básica emergencial. De início, o governo federal propôs o pagamento de R$ 200 mensais por trabalhador, o que foi prontamente rejeitado pelo Congresso. Com o apoio de setores da sociedade civil, os parlamentares chegaram a um valor mínimo de R$ 500 por pessoa e o dobro para mulheres chefes de família. Só então, diante da derrota iminente, o Palácio do Planalto acenou com os R$ 600, que acabaram aprovados.

O mesmo se deu com a votação do novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), para o qual o governo não deu a menor importância até que se viu diante de um fragoroso revés.

Apesar das deficiências do programa, o auxílio emergencial tem contribuído para o sustento das famílias mais carentes. Quase metade dos domicílios do país teve alguém que recebeu o benefício.  A distribuição desses recursos pode não ser suficiente para manter a maioria das pessoas em casa, mas ajuda os mais afetados pela crise a enfrentar esse período turbulento. E, no campo político, rendeu ao presidente um ligeiro aumento de aprovação, sobretudo entre os mais pobres.

O ímpeto revolucionário e golpista de Bolsonaro começou a arrefecer depois que seu amigo Fabrício Queiroz foi preso em Atibaia no mês passado. O PM aposentado estava escondido na casa de um advogado do presidente, que diante do “batom na cueca” resolveu ficar calado para não se complicar ainda mais.

Pressionado pelo cerco a seus aliados e pela queda de popularidade, Jair Bolsonaro recorreu ao figurino “paz e amor”. Em vez de comparecer semanalmente a protestos antidemocráticos e criticar os outros Poderes, o chefe do Executivo passou a priorizar inaugurações de obras públicas e adotou a política da boa vizinhança.

Até o nordeste, terra dos “governadores de paraíbas” tão desprezados por Bolsonaro e principal reduto eleitoral do PT, tem merecido atenção especial do mandatário. Num gesto populista calculado, Bolsonaro foi ao sertão inaugurar um trecho da transposição do rio São Francisco, a mais grandiosa empreitada de seu principal adversário político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Além de tentar associar seu nome à maior obra de combate à seca da história do Brasil, Bolsonaro também planeja reformular o Bolsa Família e assumir sua paternidade. Antes visto pela extrema direita como assistencialismo demagógico, o Bolsa Família ─ agora rebatizado como Renda Brasil ─ deve se tornar a principal política social do governo, que pretende unificar outros benefícios a fim de aumentar o valor pago por família e a cobertura do programa.

Embora tenha moderado o discurso, o presidente não abandonou o negacionismo. Sua postura anticientífica e antiambiental continua inabalável. Não por acaso, o país ultrapassou recentemente a marca dos 90 mil mortos de covid-19, e a taxa de desmatamento tem batido recordes consecutivos. Nem a doença logrou impor algum juízo ao inquilino do Planalto, que segue negando a gravidade da pandemia e fazendo propaganda de remédios sem eficácia comprovada contra o coronavírus.

Fica difícil acreditar nas boas intenções de um político que já propôs a esterilização de pobres como meio de combater a miséria e a violência. Até o momento, a gestão Bolsonaro foi marcada por reformas que retiraram direitos das classes mais baixas. Mas só o tempo dirá como essa nova estratégia do presidente será recebida pelos brasileiros.



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